julho 03, 2012

Quebrando o coco de roda das Alagoas

Em Alagoas quebrar o coco não é rachar o fruto da palmeira. Quebrar o coco de roda, em linguagem folclórica, é brincar ou dançar cadenciadamente ao ritmo do sapateado, numa grande roda com batuque. Uma manifestação popular das mais animadas. Assim se determinou e aconteceu depois, em outros estados como Pernambuco e Paraíba, e em grandes festas do folguedo. Aqui, alguns momentos do Festival de Coco de Roda de Alagoas em 2012.


Cantador e instrumentos


Sapateando no ritmo da quebrada

Seus pares

Girando na roda do coco
Sentir-se morgado sem esperança de saculejar o espinhaço em plena festa junina de Maceió não é opção.  Mesmo para se espiar, você termina salpicando uma cadência de palmas e jogo de pés, tipo xaxado dos bons com um misto de sapateado (é assim que se chama), no ritmo da entoada de improviso - ou não - do puxador /mestre cantador. Mesmo sem sua parelha, umbigada ou estar na roda, tudo vira tipo assim: quebrar o coco num maior remelexo!!! 


E o coco resfolegando, e a sanfona tocando e o espinhaço mexendo (mas você só estava assistindo). Pois não é moleza o coco de roda alagoano, antes de tudo há que se ter muita alegria e condicionamento físico para brincar o coco na roda dos dançadores!
No "Xodó Nordestino" se aprende
cedo

Detalhes do arranjo de cabeça das meninas do coco
"Tradicional Alagoano" confeccionado por elas.

Karla a cantadora do coco
"Tradiocnal Alagoano"com seu bebê

Detalhes da chapéu masculino

Maquiagem antes na dança em plena "arena"


Outro arranjo de cabeça das meninas


Grupo Coco de roda "Xique Xique",um dos mais premiados.
Deu exemplo de alegria e preseverança!


Saiote que meninas usdam por baixo da saia grande rodada


Esquentando o espinhaço


O exemplo de Caio, para atleta que não perde uma boa festa


Estava cheio de matutas lindas!


Luis Gonzaga, o tema do baile junino de Maceió.
Homenagem devida aos seus 100 anos.
Uma mixagem da herança étnica indígena, por sua formação em roda, com a africana, por seu ritmo cadenciado nas palmas e no baque do batuque. A origem do coco de roda, para alguns folcloristas, está nos engenhos de açúcar, no pisar do barro quando da construção das casas de pau à pique e para outros, nos tiradores de coco do litoral nordestino. Depois teria se transformado em grande manifestação popular através da dança e entrado para a história do folguedo brasileiro.

Entada triunfal do coco "Xodó Nordestino",uma
homenagem ao guerreiro alagoano


Tudo pelo guerreiro alagoano




Só alegria


E muita energia


No rodopio só

O Coco de roda "Tradicional Alagoano"




Os pares




“Dança do populacho, como diria Pereira da Costa. Merece que se lhe investigue a origem espúria, se lhe esclareça a naturalidade, e se lhe acompanhe também os passos que deu pela região nordestina, sua área de irradiação, partindo das Alagoas, sua terra natal. Merece que se lhe acompanhe a ascensão social também, seguindo-a, na sua trajetória, desde os mocambos, terreiros ou senzalas até os salões rurais e citadinos, que se lhe abriram nas comemorações do Natal, nas dos três santos juninos, especialmente. Devemos, mesmo admitir que há, na verdade, uma história social do Coco alagoano...”(DUARTE, Abelardo - Folclore Negro das Alagoas, Edufal,2º ed., 2010, pg44)
A umbigada

O sapateado


Karla, a coordenadora e a mestre cantadora
  

maio 08, 2012

Em Maceió, do Carrapato ao Manifesto Sururu

“Manifesto Sururu” do sociólogo alagoano Edson Bezerra diz:
     “...O Manifesto Sururu quer muito pouco. Quem sabe um pouco mais do que exercitar um certo olhar: um olhar atento por sobre as coisas alagoanas...O manifesto sururu também fala da fome. Não da fome comum, mas da fome de devorar as Alagoas... Novas rotas. Rotas alagoanas: de canais e lagoas, sobretudo. O manifesto sururu não está sozinho... está atento para os batuques noturno dos terreiros periféricos e fora de rota e também dos milhares de capoeiras espalhados. O manifesto sururu se alegra com a folia dos meninos de rua, com os guerreiros e com as tradições alimentadas pelos povos periféricos...” . 
Sítio da família herdado do português Rutilio Taveiros, meu bisavô 
Brincadeira de infância no porto das canoas de águas
límpidas, braço do Riacho Carrapatinho, hoje poluído

Hora de despinicar o gordo sururu
com tio Fernando


Casa original de Rutilio Taveiros

Quando ouvi o texto pela primeira vez me arrepiei. Aquilo tinha haver com minha terra, meu pensamento até minha infância! Muitos se identificarão, pensei e passei do devaneio à visitação. Aí, saiu:
Retornando no tempo e ao lugarejo de minha infância, periferia de Maceió, de nome antigo Carrapato, o local de famílias simples e de minorias afrodescendentes e indígenas se perdeu no tempo às margens da Lagoa Mundaú. Contato direto com a natureza, o então Carrapato era local de beleza e festividades. Lá não se produzia nada, só a paz que a natureza transmite, a beleza da fauna, da flora e das festividades locais! Hoje é área de proteção ambiental que abastece as torneiras d’água de Maceió, a APA do Catolé.

A estação do trem do Rio Novo

Igreja de N. Senhora da Conceição de 1930
em frente da estação
O Carrapato, vilarejo pesqueiro lagunar distante 26 km de Maceió, foi, certamente, região de ocupação quilombola dos negros fugitivos dos engenhos de Maceió e Marechal Deodoro (cidade histórica) para o território livre dos quilombos na Serra da Barriga em União dos Palmares - no chamado território da “Civilização do Açúcar”. Manifestações locais de cultura popular e de tradições afro confirmam.

Local rico em folguedos alagoanos (hoje sem representação oficial expressiva por falta de recursos e empreendedorismo) e resquícios da nossa história. Local de cultura e culinária de origens africana e indígena, da pesca, do molusco sururu, do peixe e demais riquezas de nossas lagoas.

Se borda e se aprende o filé na escola

Região de paisagens bucólicas, vasto coqueiral e Mata Atlântica preservada. Chegava-se lá por trem ou canoa e posteriormente pela rodagem que o ligava aos antigos bairros maceioenses, que em tempo próspero da fábrica de algodão “Carmen” absolveu a mão-de-obra local, hoje fechada. O Carrapato era um povoado de fartura que fazia da Lagoa Mundaú sua vida.
A retirada do sururu na Lagoa Mundaú é meio de vida
dos moradores do Rio Novo



O sururu é riquíssimo em ferro e minerais e muito saudável ...
se não tiver sido retirado de águas poluídas
A infância tinha histórias de casa de paredes largas com “botija” de moedas de ouro e talheres portugueses; de assombrações da Mata Atlântica, dos mitos folclóricos, como o saci, a mula-sem-cabeça, o lobisomem; de estórias de pescador; de bolos de massa puba e tapiocas, de quintais com muita fruta-pão, pitomba, jaca, coco, mangaba, carambola, jambo, caju e macaxeira; do cheiro da fumaça dos fogareiros de casca de coco para espantar os mosquitos; de apitos e apostas de corrida com o trem que passava na porta de casa; de visitas proibidas aos terreiros de candomblé para ver a “pomba gira voar” (que nunca aparecia); de boiadas entrando terreiro adentro; de estaleiros de canoas feitos sob encomenda; de banhos e passeios de canoa no braço do riacho Carrapatinho e de reuniões comunitárias com cantorias para se “despinicar” o sururu que chegava aos latões ainda na lama. O sururu é riquíssimo em minerais e ferro, e os bebês e crianças rechonchudas do Carrapato, tinham do mingau feito no caldo do sururu, sua maior refeição. A capotada do sururu, reunia todos sempre com muito festejo. Depois tinha quebra-pote, pau-de-sebo, corrida-de-saco e fita de São Gonçalo. Eventualmente, após a chegada da energia elétrica, na Praça Leonildo Cardoso da Escola Pedro Café, com televisão comunitária, assistia-se a um bom filme.
A turma do  bordado alagoano, o "filé"


Às margens da Lagoa Mundaú



A capoeira é incentivada

Praparando para o "Maculelê"
Hoje, a despeito das famílias antigas do lugar, novos moradores e sua gente simples, esse bairro ainda desprovido de boas políticas públicas, de educação ambiental e de geração de emprego e renda é tratado como baixa periferia, zona de exclusão social, de desmatamento da mata ciliar do Riacho Carrapatinho, de questões de assoreamento e poluição da Lagoa Mundaú e do nosso sururu, de lixão a céu aberto e de violência nos seus conjuntos populares. Contraditoriamente, na área de proteção ambiental, e de grupos folclóricos autênticos (guerreiro, baianas, coco de roda, pastoril e grupos de capoeira e maculelê), a presença do poder político só trouxe pequenas melhorias e um frágil e desordenado crescimento econômico para a região.
Rua do Cravo como antigamente

As famílias de ontem assumiram
a associação do morados

Todos participam da limpeza da lama
do sururu no porto das canoas

A mesma velha e boa ponte de ferro do trem


O encontro emocionado com Lia

Lia, a professora aposentada que mantem seu Cantinho da Leitura

Os exemplos para os jovens de hoje:
Toinho, Lia e Moges

A Escola local

Mas, àquelas famílias com raízes da “senzala” e costumes da “casa-grande” continuam habitando a região e merecendo acreditar que os valores de sua identidade étnica cultural, a beleza cênica e a abundância de alimentos são seus direitos de cidadão local. 
Com duas escolas municipais, um mini posto de saúde, delegacia desativada e filhos de antigos mestres de folguedos – Mestra Virgínia e Mestre Murilo Arão, o potencial natural e cultural do agora bairro do Rio Novo precisa ser valorizado e entregue aos seus habitantes com ações de cidadania como a inclusão digital, resgate da cultura popular, educação ambiental, esportes e da valorização da identidade cultural. Notadamente através da Associação Comunitária dos Moradores e Amigos do Rio, dos habitantes do alto da Igreja de N S da Conceição (1930) na Rua do Cravo (bucólico até no nome!) entre a Estação de Trem do Rio Novo e a Escola Pedro Café. O novo Rio Novo recebe inclusive o trem VLT mas não tem garantido os quatro pilares da sustentabilidade há anos: crescimento econômico, financeiro e social!
As fotos documentam o lado pouco valorizado por gestores públicos no Rio Novo. E voltando ao devaneio, procuramos investidores sociais para projeto de incentivo ao crescimento econômico e à valorização da identidade cultural do lugarejo.


O caldo de cana de ontem e de hoje